A VERDADE
por Adão Cruz
Pintura de Adão Cruz
Bonita ou feia, a mais bonita ou mais feia de todas, a mais bonita do mundo. Uma estrela que cai lá de cima e rola por aí abaixo percorrendo as ruas da cidade a luzir, a cantar ou a chorar de uma forma quase imaterial, quase sonhada, quase santificada. Nada nos pode encher de tanta beleza ou fealdade, de tanta poesia ou crueldade e de tanta felicidade. Há muito que eu não sabia dizer coisas destas sobre a Verdade. Os rios correm para o mar, mas a Verdade sempre foi um rio que nasce no mar e avança sobre nós, afogando-nos suavemente nas suas ondas ou na bravura das suas águas. Quando as ondas se desfazem, parece um lago tranquilo de um qualquer paraíso, entrando na alma e revolvendo-nos até ao fim de nós mesmos, tudo trazendo ou arrastando consigo. Quando a sua força acalma, restitui-nos sob a forma de um verso ou de uma pedrada a nossa própria identidade nua e crua. Os seus versos nascem em direcção ao infinito, repousam na crispação das ondas, dançam nas asas do vento, acendem luzes de fantasia em jardins de aguarelas ou são arrepios selvagens por entre vendavais. Repousam nas espirais que o luar estende nos leitos de algas e de espuma, levantam-se com a preia-mar que acende o seu corpo com mãos de seda ou línguas ardentes, dormindo no meio dos campos entre acordes de cristalinas fontes ou calcinantes estrondos de bombas, procurando no pulsar do coração o mítico beijo dos lábios ou os destroçados escaninhos da alma. Os seus versos são a força da vida e a força da morte, a contemporaneidade humana da existência, a aniquilação da mentira universal que o homem carrega aos ombros de geração em geração, comemorando todos os esgares da estupidez humana. Os seus versos são a força da natureza, a força intrínseca da deliciosa ou dolorosa voz emanada da sua celestial figura, a projecção da sua beleza profundamente vivente e amante, o ecoar da sua poderosa natureza nos montes e vales da nossa existência. Pode haver muitos arremedos da verdade. A Verdade é irmã gémea da Dignidade. Sem Dignidade autêntica e profunda nenhuma Verdade pode existir. Por isso, a Verdade sempre a possuiu e viveu, não se deixando embrulhar em papel de seda, ainda que amanhecido de sol e anoitecido de estrelas, com o fim de se oferecer aqui e ali como prenda banal. Nunca a Verdade foi uma prenda e muito menos banal. Nunca foi de se mostrar, mas de se viver, no mais profundo sentido do belo, do natural, do humano, do artístico, do poético e do terrífico. Por um lado, muitos a olham com lamentável indiferença e desdém, por outro lado, quem ama a Verdade não é qualquer pessoa que não tenha da vida a volúpia, a paixão e a carência que dão à alma o sentido de existir. Este mundo é uma mentira constante dos outros para connosco e de nós para nós mesmos, o que é bem pior. Nunca a Dignidade consegue arranjar formas de mentir a Verdade, nem o contrário, e o pouco que fica dá-nos tudo o que precisamos para a viagem do resto da vida, sobretudo quando palmilhamos caminhos de Dignidade, onde podemos ter a sorte de encontrar a Verdade em realizações humanas dentro da Ciência e da Arte. Olhar a Verdade, ver a Verdade, sentir a Verdade é mais do que tudo na diabólica complexidade da puta desta vida. No entanto, não somos loucos. Temos os pés assentes na terra e sabemos que formalmente a Verdade nem sempre nos pertence, mas antes não nos pertença, no sentido folclórico da vida, e seja um metabolito essencial de toda a nossa inquietação anímica e racional. Não a deixemos morrer, pois são tão raras as Vidas. Não a deixemos secar nem apagar pois são tão raros os rios impetuosos, os ventres de fogo, as presenças de início de mundo, os pedacinhos de céu caídos do firmamento e que andam por aí tropeçando nos caminhos da vida, onde ninguém sabe o que é um pedacinho de céu. Por isso, a reclamamos como criação da natureza pintada por mãos e tintas que a vida banal e vulgar desconhece e não sente.


